quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os Sinos

I

Escuta: nos renós tilintam sinos
argentinos!
Ah! que de mundo de alegria o som cantante prenuncia!
Como tinem, lindo, lindo,
no ar da noite fria e bela!
Vão tinindo e o céu inteiro se constela,
florescente, refulgindo
com deleites cristalinos!
Dão ao Tempo uma cadência tão constante
como um rúnico descante,
com os tintinabulares, pequeninos sons, bem finos,
que nascendo vão dos sinos,
sim, dos sinos, sim, dos sinos,
saltitantes, bimbalhantes, dentre os sinos.

II

Escuta: em núpcias vão cantando os sinos,
áureos sinos!
Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!
No ar da noite, embalsamado,
como entoam seu enlevo abençoado!
Tons dourados, lentas notas
concordantes...
E tão límpido poema aí flutua
para as rolas que o escutam, divagantes,
vendo a lua!
Volumoso, vem das celas retumbantes
todo um jorro de eufonia
que se amplia,
"O futuro é belo e bom!"
- clama o som,
que arrebata, com em êxtases divinos,
no balanço repicante que lá soa,
que tão bem, tão bem ecoa
na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos,
carrilhões e sinos, sinos,
no rimado, consonante som dos sinos.

III

Escuta: em longo alarma bradam sinos,
brônzeos sinos!
Ah! que história de agonia, turbulenta, se anuncia!
Treme a noite, com pavor,
quando os ouve em seu bramido assustador.
Tanto é o medo que, incapazes de falar,
se limitam a gritar,
em tons frouxos, desiguais,
clamorosos, apelando por clemência ao surdo fogo,
contendendo loucamente com o frenesi do fogo,
que se lança bem mais alto,
que em desejo audaz estua
de, no empenho resoluto de algum salto
(sim! agora ou nunca mais!),
alcançar a fronte pálida da lua!
Oh! os sinos, sinos, sinos!
De que lenda pavorosa, de alarmar,
falam tanto?
Clangorantes, ululantes, graves, finos,
quanto espanto vertem, quanto,
no fremente seio do ar!
E por eles bem a gente sabe - ouvindo
seu tinido,
seu bramido -
se o perigo é vindo ou findo.
Bem distintamente o ouvido reconhece
pela luta,
na disputa,
se o perigo morre ou cresce,
pela ampliante ou descrescente voz colérica dos sinos,
badalante voz dos sinos,
sim, dos sinos, sim, dos sinos,
do clamor e do clangor que vêm dos sinos!

IV

Escuta: dobram, lentamente, os sinos,
férreos sinos!
Ah! que mundo pensares tão solenes põem nos ares!
Na silente noite fria,
quando a alma se arrepia
à ameaça desse canto melancólico de espanto!
Pois em cada som saído
da garganta enferrujada
há um gemido!
E os sineiros (ah! essa gente
que, habitando o campanário
solitário,
vai dobrando, badalando a redobrada
voz monótona e envolvente...),
quão ufanos ficam eles, quando vão
tombar pedras sobre o humano coração!
Nem mulher nem homem são,
nem são feras: nada mais
do que seres fantasmais.
E é seu Rei quem assim tange,
é quem tange, e dobra, e tange.
E reboa
triunfal, do sino, a loa!
E seu peito de ventura se intumesce
com os hinos funerários lá dos sinos;
dança, ulula, e bem parece
ter o Tempo num compasso tão constante
qual de rúnico descante,
pelos hinos lá dos sinos!
Ah! dos sinos!
Leva o Tempo num compasso tão constante
como em rúnico descante,
pela pulsação dos sinos,
a plangente voz dos sinos,
pelo soluçar dos sinos!
Leva o Tempo num compasso tão constante,
que a dobrar se sente, ovante,
bem feliz esse rúnico descante,
com o reboar que vem dos sinos,
a gemente voz dos sinos,
o clamor que sai dos sinos,
a alucinação dos sinos,
o angustioso,
lamentoso, lutuoso som dos sinos!

 (Edgar Allan Põe)

Traçados reais

A garota costumava encher o seu caderno com desenhos. Quem diria que algum dia na sua vida representaria num papel o seu próprio destino.  Espontaneamente ela desenha um coração partido. Mal tracejado, desingonçado, predestinando o caminho das desilusões futuras da pobre garota. Ela não sabe, é apenas uma criança, mas traços expelidos num papel são como palavras lançadas ao mundo, não há mais como voltar atrás.  Arranca a folha com o desenho do coração partido e exibe pras paredes do quarto. Como são cruéis os que escolhem quem irá sofrer e sem nenhum ressentimento ainda debocham e saem fora. O vento toma dos concretos o papel com o coração partido e tenta consertar o desenho. Mas não adianta. Os dedos já fizeram apostas futuras.  Eles riem monstruosamente. A garota nunca sentirá vergonha de demonstrar seus sentimentos, ela tem demais.  Mas nunca escolherá o certo a quem entregar o seu coração. Ela viverá num mundo de encruzilhadas.
.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


Um amor que grita ou um amor que silencia?


O Barco

Barco à deriva, em busca de uma trajetória encerrada em teu olhar. O vento sopra trazendo um ar cálido das velas que me beija a face. Desprende-se um canto solo que se confunde ao azul-turquesa da água. Por que choras Mar, já que não possuis âncoras que te prendem a um naufrágio? Feliz és tu que podes descobrir novos mundos. Ainda sonham os meus olhos, estes já não possuem sal em tudo que ver, têm saudades de horizontes. Talvez seja uma descoberta, talvez seja uma liberdade. Tantas tempestades enfrentadas arrastaram feridas que já nem dói. O que vem na lembrança é uma vontade de ser. Vou-me firmando no leme do meu coração errante e suavizando a ânsia do que ainda estou por descobrir. Ficar é regredir. Visto-me com as cores do dia nascente. Miro os dormentes raios de sol que trazem consigo traços da minha essência, mesmo efêmeros. Em minhas mãos eu tento agarrar o vento que traz vestígios ínfimos do canto de uma sereia, ritmado ao beijo das ondas com a proa. Peixes pintam telas no fundo do mar. Todos esses olhares é o prazer de negar a solidão, livre de amarras. Teu olhar apareceu e trouxe consigo as ondas para eu navegar. Parto à descoberta!


                               

( The Wizard of Oz)
                                                                                                                


As mulheres de Picasso








Musas fragmentadas

de sensualidades selvagens e monstruosas.
Pinceladas com violência,
geometricamente expressiva.
Ocultadas atrás de planos gris.
Transgressoras das simetrias
de pés que voam,
de cabeças que rastejam,
motivando uma desordem.
Olhares tridimensionais
em tons suaves e melancólicos,
tão brutais e tão frágeis.
Bárbaras silenciadas pela sua natureza,
arquejada nos palco das tragédias humanas
à beira de um abismo
e dos tormentos de um artista.